Presença digital e a política

Presença digital e a política

Está acabando o segundo turno da eleição e eu quero dar meu pitaco sobre o grande debate entre ter ou não presença digital na política. Qual é a relação do uso de internet e a nova onda de influencers digitais? Quais são os fatores que devemos olhar para entender esses fenômenos?

Olhar só para a presença digital é como olhar apenas para a vitrine de uma loja e tentar entender por que a loja é um sucesso. Quando alguém faz uma compra, inicialmente tem uma necessidade, aí olha para uma vitrine, depois é recepcionado por um vendedor e só no final faz a compra. Mas o meu argumento não será por meio da vitrine; vamos dar um passo atrás: o que acontece nas eleições que nós não vemos?

Para entender bem, quero trazer um pensador de quem gosto e minha experiência em igrejas evangélicas. Creio que o que vou citar aqui acontece de forma semelhante em outras bolhas, como a de desenvolvedores de software, mas com organizações e atores diferentes. Outro ponto é que as redes sociais vão sair do foco. Não quero debatê-las, mas quero mostrar os mecanismos sociais que as validam.

Propaganda Total

A meu ver, estamos vendo um grande mecanismo de Propaganda Total, em que a única ponta visível e abertamente política são os influencers.

Jacques Ellul, em seu livro "Propaganda: The Formation of Men’s Attitudes", fala de uma tática de propaganda coordenada chamada "Propaganda Total". A Propaganda Total ocorre quando um grupo político trabalha coordenadamente para fazer suas ideias avançarem por diversos meios. Cada meio de comunicação tem um público e uma abrangência.

Como o livro foi escrito em 1973, ele obviamente não cita a internet, que na época ligava alguns poucos computadores que podiam ser mapeados em um diagrama, mas cita rádio, cinema, jornal e televisão. Um programa de rádio não é recebido da mesma forma que uma notícia de jornal ou como um filme. Cada um vai transformar a forma como pensamos, mas é recebido e processado de forma diferente. Ao vermos um filme, não pensamos tão racionalmente quanto ao ler uma notícia de jornal.

A propaganda tenta cercar o homem por todos os meios possíveis, tanto no âmbito dos sentimentos quanto no das ideias, explorando sua vontade e suas necessidades, através do consciente e do inconsciente, atacando-o tanto em sua vida privada quanto em sua vida pública.

— Jacques Ellul
Propaganda: The Formation of Men's Attitudes

É ingenuidade nossa achar que só a presença digital é o trabalho deles. A presença digital dessas pessoas é coordenada com diversas outras atividades, como músicas, pregações, congressos e até conversas de amigos. Há identificação de grupo ou de padrão de consumo, há o desejo de aceitação e, principalmente, O MEDO.

Vamos olhar para o caso do tal vereador que virou deputado só falando de trans nos banheiros. Para mim e para você, isso não faz sentido, e isso não é um problema. Mas, para algumas pessoas, isso parece ser um problema, porque, quando o influencer fala, ele já associa com o que o pastor da igreja falou sobre o avanço da "ideologia de gênero"; vai lembrar do relato de uma dona Maria que tem um neto trans e de alguém citando no "grupo do zap" que pessoas estão sendo forçadas a trocar de sexo.

Aquela realidade que parece distante começa a ser discutida em todos os meios que circulam a pessoa e faz ela ter a impressão de que é real. MESMO NÃO SENDO REAL.

O influencer não está plantando a ideia, está colhendo os frutos já plantados há muitos anos por uma ampla rede.

E temos de ter muito cuidado ao apontar o dedo para o pastor: ele também é vítima nessa engrenagem. Isso é uma ideia que ele ouviu em um congresso com um pastor gringo superconceituado, formado em uma universidade estadunidense sem credibilidade nenhuma (só que, para ele, ser uma universidade gringa é credibilidade).

A Fé do Povo

Aqui quero dar outro passo atrás: o povo tem fé e devemos entender isso. Eu mesmo tenho fé, sou cristão protestante e não vou a uma igreja desde o estouro da COVID. Aliás, orgulhosamente digo que não vou porque as igrejas foram instrumentalizadas DESDE A DÉCADA DE 1970 e é sobre isso que precisamos conversar.

A fé evangélica que existe no Brasil é bem diferente de sua base cristã, que, por sua vez, é diferente de sua base europeia, que é diferente de várias outras vertentes. Mas o que vemos hoje é a resposta a um tipo de catolicismo que surgiu na América Latina. Ela foi forjada no individualismo e serve como justificativa para ignorar toda assistência coletiva no sucesso pessoal. Ela é a resposta de organizações evangélicas à Teologia da Libertação. (Havia uma vertente evangélica dessa teologia, mas ela foi perseguida nos últimos 10 anos.)

Tem dúvidas disso? Tem documentação, tem reportagem, tem livros etc. Procura aí "CIA e Igrejas Evangélicas" no Google. Eu achei a reportagem Fé capitalista: Como os EUA usaram a religião para combater o comunismo no Brasil no Intercept; tem o livro Jesus e John Wayne: Como o evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos, de Kristin Kobes Du Mez, que fala de como os papéis de homens e mulheres foram transformados pelos EUA na fé evangélica.

Tem muita coisa. A fé cristã foi usada como um mecanismo de domesticação do povo, da mesma forma como o colonialismo inglês usou o sistema de castas hindu. Tem como escapar dessa domesticação? Tem! Mas não é apontando o dedo para o cristianismo. Ao apontar o dedo, estamos atuando conforme o planejado por quem planejou tudo isso.

Mas vamos voltar ao pastor da pequena comunidade: precisamos entendê-lo antes de julgá-lo.

Os Congressos de Pastores

Agora tente se colocar na posição de um pastor evangélico de uma pequena igreja. Quero separar esse grupo em dois: os que realmente creem no cristianismo e os que usam a fé para ganhar dinheiro. Olhe para o primeiro grupo, esqueça o segundo por enquanto.

As pessoas desse grupo têm uma real vontade de ajudar os membros da igreja delas. Em muitos casos, a ajuda de custo da igreja nem cobre seus gastos pessoais, e o ofício de pastor é acompanhado de outra profissão. Esse indivíduo é sobrecarregado. Trabalha de segunda a sexta em um emprego e, à noite, cumpre algumas agendas como pastor. Às vezes, é chamado para conversar com o filho de uma irmãzinha que está envolvido com drogas, ou precisa pegar uma cesta básica para uma família cujo pai está desempregado, ou tratar de outro assunto qualquer.

Eu já conheci diversas pessoas assim. Ele olha as redes sociais e vê um grupo criminalizando o "ofício" dele de pastor, enquanto outro o acolhe e o chama para congressos. Sim! Pessoas como Silas Malafaia acolhem esse indivíduo. Mas também há diversos outros pastores não caricaturais como Silas. Alguns até são críticos à Teologia da Prosperidade, mas atuam em conluio com Silas Malafaia e outros. Vamos entender isso mais à frente.

Nesses congressos, esse pastor vai participar de vários cursos sobre como organizar as contas da igreja, como engajar os membros a participar etc. — uma série de boas instruções para o dia a dia do pastor. Mas…​ tem o palestrante internacional. Esse palestrante vai vender o sonho de construir uma comunidade de fé engajada que transforma a realidade da igreja e da sociedade ao redor. Para esse pastor, a igreja é a única instituição que pode reformar a sociedade.

O palestrante internacional é sempre um indivíduo de uma Mega Church em alguma cidade dos EUA. Esse pastor vai vir com a jornada do herói e dar um roteiro de crescimento. Mas, no meio de tudo isso, surge o grande trunfo: um "grande mal" está sendo gestado para ameaçar as famílias. E é esse mal que impede o crescimento da igreja.

Pare e volte para antes do congresso. Lembra que esse pastor precisou conversar com o filho da irmãzinha envolvido com drogas? Depois, ele teve de conseguir uma cesta básica? Nessa hora, o pastor vai ver o mal atuando, MESMO QUE ELE NÃO EXISTA. O pregador internacional conhece a realidade brasileira. Ele faz parte de think tanks que têm atuação tanto na gringa quanto localmente. Procura "The Gospel Coalition" ou "Coalizão pelo Evangelho" aí.

Nós, que não somos pastores, não somos convidados para esses eventos. Não sabemos que eles existem nem o que acontece neles. Eu mesmo só sei porque convivi com pastores entre 2008 e 2012. Esses eventos sempre são em hotéis luxuosos para quem vai, mas, de certa forma, são acessíveis para muitos, até porque alguns não precisam pagar.

O coração do pequeno pastor é capturado, e ele começará a acreditar que agora está ciente da grande verdade: o grande mal que está controlando o mundo. Isso também foi usado por vários livros gringos, como Deixados para Trás ou Este Mundo Tenebroso (todos exemplos dos anos 1990, porque, depois que li esses lixos, me blindei de receber indicação). Através desses congressos, o discurso de diversas igrejas é alinhado. O problema deixa de ser individual e passa a ser coletivo, mesmo sendo irreal.

A propaganda é eficaz não quando baseada em preconceitos individuais, mas sim quando se baseia em um centro de interesses coletivos, compartilhado pela maioria.

— Jacques Ellul
Propaganda: The Formation of Men's Attitudes

O Propagandista e o Iludido

Quando esse pastor volta para a sua comunidade, ele será um propagador dessas ideias ouvidas nos congressos, mesmo sem ter ideia de onde elas vieram e sem ser consciente do próprio papel.

Para ele, é apenas uma questão de sobrevivência. Ele trabalha de graça para uma infraestrutura que ele mesmo não conhece por completo e com a qual já estabeleceu uma relação de confiança. Ele se sente igual ao pastor gringo, pois ambos são pastores e possuem comunidades com aparentemente os mesmos problemas.

Esse pastor nunca questiona de onde veio o dinheiro dessa infraestrutura ou, se questiona, vê com bons olhos os gringos vindo aqui. Eu conheço casos de alguns que perceberam essa infraestrutura; são raros.

Essa infraestrutura gringa é malévola. Não se deixe enganar. Uma vez, conheci um missionário entre os ribeirinhos na região de Santarém, no Pará. Ele trabalhava com uma organização gringa e, em poucos dias, percebeu o que acontecia. Há muito dinheiro gringo rolando no Brasil, e esse dinheiro tem diversos propósitos.

Esse missionário me relatou cruzeiros cheios de gringos que vinham para o Norte e onde rolava de tudo: drogas, prostituição etc. e, óbvio, POLÍTICA. Os gringos só precisavam de uma foto para justificar o trabalho deles e, para isso, faziam um culto por semana com distribuição de cestas básicas e brinquedos. Na gringa, ia só a foto de uma igreja cheia de pobres felizes: o branco salvador. Pelo que entendi, jovens estadunidenses vinham "evangelizar" na Floresta Amazônica e ficavam em cruzeiros de luxo, onde podiam fazer absolutamente tudo. Mas é estereotipado dizer que isso não existe!!!!

O cara me relatou que abandonou a missão e ficou viajando pelo Norte inteiro, visitando as vilas de ribeirinhos e ajudando-os como podia. Ele ajudava comunidades a se estabelecerem sem a ajuda dos gringos. A ideia dele era blindar essas comunidades contra os gringos. Mas ele não podia mais topar com a agência gringa. A sorte dele é que o financiamento era nacional e a igreja dele ainda não era radicalizada. Esse cara, depois, foi fazer cisternas no sertão nordestino, e eu o acompanhei em várias viagens. Também fiz uma viagem com ele para Ilha Comprida, onde ajudamos uma comunidade em que crianças eram abusadas rotineiramente por turistas ao servirem de trabalhadoras domésticas.

E o que os influencers têm com isso?

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com os influencers, né? A resposta é: tudo! Nessa infraestrutura, é bem sabido que cada um tem seu papel. Eu ouvi muito a frase "um planta, outro rega e outro colhe".

O influencer não opera de forma inconsciente nela. Ele opera coordenado com ela. Quando ele fala de trans no banheiro, o pastor já falou do grande perigo, da grande ameaça e citou o caso do filho da dona Maria hipotética. A mensagem do influencer é a resposta direta a uma série de outras mensagens, e o indivíduo acredita que essas coincidências só podem ser obra divina.

Essa é a propaganda total em ação.

Há o caso das meninas da Ilha de Marajó. Teve até música lançada em conjunto com post de ministra e influencer gospel. Aliás, a música era tão bonita que eu até compartilhei no Twitter na época. Depois apaguei. Em todos esses casos, há um grande mal sendo operado, um senso de urgência e pessoas a serem salvas. O medo e o amor das pessoas são manipulados por interesses políticos mesquinhos. De um lado, temos o influencer colhendo louros políticos; de outro, temos pessoas reais com desejos reais de mudança. E essas pessoas só veem uma forma de ajudar essas pessoas.

Mas quero contar aqui uma experiência minha em que ajudei a quebrar essa realidade.

Como eu já quebrei essa realidade?

Eu já trabalhei dentro de uma organização religiosa numa época sem radicalização. Chocante, não? Lá, eu foquei em transformar realidades usando a coletividade. Minha ideia era levar jovens universitários para trabalhar em periferias, e eu trabalhava com dois objetivos claros: ajudar essa galera da periferia em suas necessidades e fazer com que o jovem de classe média pudesse compreender a realidade da periferia.

Eu não comecei esse trabalho do zero. Cheguei a uma organização em que já havia pessoas ligadas à Teologia da Missão Integral (braço evangélico dessa teologia, com algumas peculiaridades) trabalhando em periferias há mais de 10 anos. Peguei o trabalho e o reavaliei segundo a minha visão. Quando fiz isso, recebi muitas reações negativas, e isso foi muito esclarecedor para mim.

"Por que enviar dinheiro para grandes organizações?"

A primeira reação foi a quebra de confiança entre a organização e o trabalho coletivo. Nas igrejas evangélicas, há um consenso de que se precisa de grandes organizações para o trabalho evangelístico; por isso, grandes organizações gringas são bem recebidas. Ao fazer um trabalho simples, quebrei essa confiança. As pessoas perceberam que muito pode ser feito apenas organizando direitinho. Assim, não precisa mandar dinheiro para organização gringa. Aliás, organizações como JOCUM ou o Movimento Dunamis são organizações políticas travestidas de missões evangélicas, com muita abertura dentro de igrejas evangélicas.

"Não precisa falar de Jesus?"

Esse foi um ponto crucial no meu trabalho. A minha primeira pergunta foi: "Como ganhar o povo da periferia?" 🤔

Avaliei tudo o que já tínhamos feito e vi que o mais simples era o que dava mais sucesso. Essa resposta veio de gente com mais de 20 anos de experiência trabalhando em periferia. Eles precisavam ver em nós um aliado. Em vez de seguir o roteiro das igrejas evangélicas, voltei aos cristãos primitivos, que foram chamados de "cristãos" por serem "pequenos cristos", ou seja, pessoas que ajudavam o outro em sua necessidade sem pedir nada em troca. Você não ganha a confiança de um grupo sem pedir nada em troca, e o grupo vai se interessar pelo que você acredita! Começamos a trabalhar com escola de esportes, oficinas com crianças e mães a partir das necessidades delas, apoio material etc. Uma das grandes necessidades que as mães relatavam era que a escola era de meio período e as crianças ficavam na rua a tarde inteira fazendo nada. Por que não jogar futebol? Até a facção reconheceu nosso trabalho e nos protegeu da igreja pentecostal do bairro. 😂

"Você quebrou nosso acordo. Só igreja pentecostal vai na periferia. Nossos jovens não podem se misturar."

Esse foi o meu maior choque. Ouvir isso foi como se uma máscara tivesse caído, e o acordo não dito teve de ser dito. Igrejas evangélicas têm público-alvo e perfil. Há um acordo entre as lideranças evangélicas que os membros desconhecem. A periferia foi rifada aos pentecostais, e as igrejas de classe média são pensadas por suas lideranças para alienar as pessoas da realidade do mundo.

Cada tipo de igreja com a sua realidade. Não misture as coisas. Imagina se o jovem de classe média fica amigo do jovem pobre da periferia?!

Tá, mas eu não sou evangélico! Por que preciso saber disso tudo?

Eu sei! Falei isso para mostrar dois pontos.

O primeiro deles é que os influenciadores não operam no vácuo. Eles estão trabalhando em mecanismos invisíveis que não vemos porque, às vezes, a realidade é mais complexa do que podemos imaginar. Há alguém pensando tudo isso? Não sei. Eu sou só um engenheiro com consciência de classe e que deseja a todo custo mudar a sua realidade.

O segundo ponto é que essa minha experiência, mesmo datada até 2012, me mostrou como pessoas se aproximam e podem influenciar outras. Eu vi isso pelas minhas leituras e pela minha vivência.

Por fim, faço o relato imaginando uma Hidra, uma organização transnacional que atua para moldar a nossa mentalidade política com diversos tentáculos que muitas vezes parecem desconexos, mas estão sob o mesmo comando. Quando as redes sociais começaram a surgir como um fator político no Brasil, eu já estava no processo de ser ostracizado, como todos os adeptos da Teologia da Missão Integral. Hoje vejo muitas dessas pessoas que estavam ao meu lado ou se subjugando a organizações religiosas totalmente fascistizadas ou trabalhando em outras áreas, já que muitos não tinham formação além da religiosa.

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